Durante muito tempo, o tapete foi tratado como uma das últimas escolhas de um projeto de interiores. Mas, quando ele é bem pensado, pode ir além da estética, e ajudar a organizar o ambiente, delimitar usos e criar unidade entre os móveis. Essa discussão ficou ainda mais evidente na última Milan Design Week.
A Liberty se uniu à designer Lorenza Bozzoli para apresentar Soft Architecture, uma instalação que propunha ampliar o papel dos tecidos no design. A ideia era justamente deixar de enxergá-los apenas como superfícies decorativas e explorar sua capacidade de criar volume, presença e experiência no espaço.
Essa forma de pensar os têxteis não é exatamente nova. Em 1957, Anni Albers publicou o ensaio The Pliable Plane: Textiles in Architecture, no qual discutia a relação entre tecidos e arquitetura e questionava o lugar excessivamente decorativo dado a esses materiais nos interiores. Ela também chamava atenção para características que vão além da aparência, como a sensação de maciez e a capacidade de tornar os ambientes acusticamente mais confortáveis.
No caso dos tapetes, essa relação com a arquitetura é muito direta. Em uma sala integrada, por exemplo, é ele que muitas vezes ajuda a mostrar onde começa e termina a área de estar. Ao reunir sofá, poltronas e mesas sobre uma mesma superfície, o conjunto passa a fazer mais sentido visualmente e ganha uma proporção mais clara dentro do ambiente.
É por isso que tamanho não deve ser tratado apenas como uma questão prática. Um tapete pequeno, solto no centro da sala, tende a parecer um objeto independente. Quando acompanha melhor o layout, ele passa a participar do desenho do espaço. O formato também interfere nessa leitura. Um tapete retangular pode reforçar a geometria da arquitetura. Um modelo orgânico pode fazer o contrário e quebrar a rigidez de um ambiente muito reto. Em alguns projetos, o tapete acompanha o espaço. Em outros, é justamente ele que cria o contraste necessário.
O mesmo vale para cor e desenho. Um tapete mais contrastante pode marcar uma área com mais força. Quando se aproxima da tonalidade do piso, a leitura tende a ser mais contínua. O desenho também pode conduzir o olhar e criar movimento sem que seja necessário acrescentar novos elementos ao ambiente.
Hoje, esse debate ganha ainda mais força porque a forma de morar mudou. Com ambientes cada vez mais integrados, as paredes deixaram de ser as únicas responsáveis por organizar uma planta. O mobiliário, a iluminação e o tapete passaram a assumir parte dessa função.
Por isso, acredito que o tapete deveria entrar mais cedo no desenvolvimento de um projeto. Quando ele aparece apenas no final, como uma peça para preencher um espaço que já está pronto, parte do seu potencial se perde.
Marinho Pisaneschi | Punto e Filo

.png)




.png)